A Estação Espacial Mir

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A estação Mir foi a concretização do sonho soviético (e de toda a humanidade) de manter o espaço ocupado de forma permanente. Sucessora da linhagem de estações Salyut, a Mir circulava a Terra numa órbita com apogeu de 400 km e perigeu de 350 km. Era constituída por 6 módulos principais [ diagrama ]: o núcleo e os módulos científicos Kvant, Kvant-2, Krystall, Spektr e Priroda (respectivamente Quantum, Cristal, Espectro e Natureza).

 

Principais dados da Mir

Peso: cerca de 143 toneladas, incluindo seu módulo central e cinco outros componentes, e até154 toneladas, com o acréscimo do módulo de carga e da nave de transbordo.

Custo: $4.2 bilhões de dólares para sua construção e manutenção, segundo a Agência Espacial Russa.

Tripulações: Mir abrigou um total de 104 pessoas, incluindo 42 soviéticos e astronautas de vários países.

Missões: ao todo, foram realizadas 46 expedições até a Mir e dezenas de milhares de experiências científicas.

 

Alguns recordes das tripulações da Mir

Em 1994-1995, o cosmonauta Valery Polyakov estabeleceu o recorde de permanência no espaço com a marca de 438 dias.

O cosmonauta russo Valeri Poliakov realizou o mais longo vôo espacial da história, passando 437 dias na Mir, de 8 de janeiro de 1994 a 22 de março de 1995.

O também soviético Sergei Avdeyev permaneceu dois anos (747 dias) no espaço ao longo de três missões distintas, com o que detém o recorde de estada no espaço.

O mais longo vôo de um astronauta estrangeiro na Mir foi o do francês Jean-Pierre Haigneré, que passou 188 dias na estação. Anatoli Soloviev realizou 16 saídas ao espaço, com uma duração total de 77 horas.

Finalmente, a americana Shannon Lucid estabeleceu um recorde de estada de uma mulher no espaço, 188 dias, dos quais 183 a bordo da Mir.

Em sua vida útil, a Mir completou 86.320 órbitas, tendo percorrido 3,36 bilhões de km em volta da Terra.

 

Arquitetura da Mir

O Core Module (núcleo) da estação espacial Mir foi lançado em 20 de fevereiro de 1986. Este módulo proporcionava serviços básicos de sustentação de vida à tripulação (alimentação, repouso e higiene), e também possuía recursos básicos para pesquisas científicas. O núcleo possuía duas portas de acoplamento, nos eixos +X e -X (ver diagrama), para o acoplamento de naves tripuladas Soyuz-TM (capacidade para 3 astronautas) e cargueiros automáticos Progress-M, além de mais quatro portas, nos eixos (+Y, -Y, +Z, -Z), para acoplamento de módulos de expansão. O peso total do núcleo era de 21 toneladas, seu comprimento era de 13,1 metros e seu diâmetro máximo de 4,15 metros. Possuía um volume interno (pressurizado) de 90 m³ e a sua energia elétrica era fornecida por 3 painéis solares, com uma área total de 76 m².

Crédito: S. P. Korolev Rocket and Space Corporation Energia

Os astronautas eram conduzidos à estação Mir por meio das naves Soyuz-TM, que acoplavam na porta do lado -X do núcleo. As naves Progress-M, que desde 1989 substituíram as antigas Progress, carregavam suprimentos (combustível, oxigênio, experimentos científicos, pertences pessoais dos astronautas e assim por diante) e acoplavam no lado +X do núcleo. Sua capacidade de carga era de 2,5 toneladas. Na configuração definitiva, como o módulo Kvant estava acoplado no lado +X do núcleo, na realidade as naves de carga acoplavam no lado +X do Kvant, como bem pode ser observado na foto, onde há uma nave Soyuz-TM acoplada à porta -X do núcleo (à esquerda da foto) e uma Progress-M acoplada à porta +X do módulo Kvant, por sua vez acoplado à porta +X do núcleo (à direita da foto).

As naves Progress-M podiam ser equipadas com pequenas cápsulas de reentrada balística, denominadas de Raduga, cuja função era trazer de retorno à Terra filmes ou resultados de experimentos científicos da Mir.

Os módulos conectados ao núcleo da Mir, que evoluíram das estações Salyut ou de algumas naves automáticas não tripuladas da série Kosmos eram:

Crédito: S. P. Korolev Rocket and Space Corporation Energia

Seu peso era de 11 toneladas, com um comprimento de 5,8 metros e um diâmetro de 4,15 metros.

Seu volume pressurizado era de 40 m³; em agosto de 1992 foi instalado um conjunto de motores (conhecido como SOFORA) em um mastro de 14 metros montado no topo do módulo Kvant, melhorando a eficiência do controle de atitude da Mir e propiciando uma relevante economia de combustível;

Crédito: S. P. Korolev Rocket and Space Corporation Energia

Crédito: S. P. Korolev Rocket and Space Corporation Energia

Crédito: S. P. Korolev Rocket and Space Corporation Energia

Assim, o módulo Priroda carregava scanners ópticos e infravermelhos, um espectrômetro de imagens, um LIDAR, radiômetros de microondas, câmaras digitais estéreo de alta resolução, um radar de 1.28/3.28 GHz e mais uma relação impressionante de instrumentos científicos de altíssima tecnologia, fornecidos por diversos países.

O peso do módulo era de 19 toneladas, com um comprimento de 13 metros e um diâmetro de 4,3 metros. Seu volume pressurizado era de 66 m³.

 

Crédito: S. P. Korolev Rocket and Space Corporation Energia

Assim, com um peso total de mais de 100 toneladas, a Mir oferecia aos seus ocupantes (normalmente cientistas) um espaço útil de 380 m³.

 

Breve histórico da Mir

A Mir foi, sem dúvida, a mais importante realização do programa espacial Soviético (e, segundo este autor, a mais importante e bem sucedida experiência espacial da humanidade até hoje). Com o sucesso da Mir, o programa espacial soviético conseguiu se refazer de alguns fracassos retumbantes, como os acidentes da Soyuz 1 (1967) e Soyuz 11 (1971), o fiasco do lançador N-1, a perda da Lua para os americanos e repetidas perdas de estações Salyut.

Nos seus últimos meses de vida, Mir flutuou no espaço solitariamente, sem nenhuma tripulação a bordo e sem uma nova missão. Em março de 2001, depois de 15 anos de quebras consecutivas de recordes, e tendo escapado de uma série de desastres, a veterana estação espacial foi tirada de órbita, rumo a um mergulho fatal no Oceano Pacífico.

Estes foram os fatos mais marcantes dos seus 15 anos de vida:

20 de fevereiro de 1986

Decolagem do foguete soviético Proton SL-13, transportando o primeiro módulo (o núcleo, ou Core Module) da Mir. Este módulo, uma evolução do projeto das Salyut, possuía seis escotilhas de acoplamento para naves espaciais ou para módulos de laboratório.

13 de março de 1986

A primeira tripulação da Mir foi formada por Leonid Kizim e Vladimir Soloviev; num vôo épico a bordo da Soyuz T-15, eles ativaram a Mir, voaram até a Salyut-7, retiraram dela os equipamentos científicos mais importantes e desativaram a estação; a seguir, voltaram para a Mir e instalaram os equipamentos retirados da Salyut-7.

19 de março de 1986

Acoplamento da primeira nave de carga, a Progress 25.

09 de abril de 1987

Acoplamento do observatório astrofísico Kvant, primeiro módulo a se acoplar à Mir.

06 de dezembro de 1989

Acoplamento do módulo Kvant-2 à Mir, melhorando as condições para a realização de caminhadas espaciais.

10 de junho de 1990

Acoplamento do módulo Krystall, projetado para experiências técnico-científicas.

02 de dezembro de 1990

O jornalista japonês Toyohiro Akiyama, da Tokyo Broadcasting System, realizou uma reportagem a bordo da Mir durante uma breve visita (nave Soyuz-TM 11).

18 de maio de 1991

Chegada do astronauta Sergei Krikalev à Mir para uma missão que acabou se estendendo por mais de um ano e três meses, em parte por causa do colapso da União Soviética.

25 de agosto de 1994

O cargueiro Progress-M 24 falhou na primeira tentativa de acoplamento; uma segunda tentativa automática resultou na colisão da nave com o módulo Kvant; apenas na terceira tentativa, contolada manualmente, o acoplamento teve êxito. Os astronautas Yuri Malenchenko e Talgat Musabaev realizaram uma EVA para verificação dos danos.

03 de fevereiro de 1995

Encontro espacial da nave espacial americana Discovery com a Mir; aproximaram-se até a distância de 11 metros; não estava previsto o acoplamento.

14 de março de 1995

Acoplamento da Soyuz TM-21, que levava o astronauta Norman Thagard, o primeiro americano a voar numa nave Soyuz.

20 de maio de 1995

Acoplamento do módulo astrofísico e geofísico Spektr.

27 de junho de 1995

Acoplamento do transportador espacial Atlantis (missão STS-71).

12 de novembro de 1995

O módulo de acoplamento foi levado pelo shuttle Atlantis (missão STS-74) e encaixado no módulo Kristall. Sua função, obviamente, era permitir o acoplamento dos shuttles americanos.

26 de abril de 1996

Dez anos depois de iniciada a construção da estação, ela foi completada com a chegada do módulo Priroda.

06 de abril de 1997

Durante um teste de acoplamento, a nave Progress-M 34 chocou-se contra a Mir. O impacto provocou um vazamento de ar, que os astronautas Tsibliev e Lazutkin conseguiram localizar e vedar antes de perder muito mais oxigênio. O acidente despressurizou o atingido, o Spektr, que foi desligado, mas permaneceu conectado à estação.

20 de novembro de 1998

O foguete Proton instalou o módulo russo Zarya, o primeiro segmento da estação espacial internacional ISS em órbita. É derivado das estações militares TKS (Salyut 3 e 5). A NASA passou a pressionar a agência espacial russa para retirar a Mir de órbita, alegando preocupações a respeito da segurança da veterana estação.

16 de abril de 2000

A nave Soyuz TM-30 trouxe de volta à Terra a última tripulação da Mir (Sergei Zaletin e Alexander Kaleri), depois de uma viagem de dois meses. Os dois astronautas foram patrocinados pela MirCorp, grupo de investidores privados empenhados em manter a Mir no espaço, para torná-la um hotel espacial de luxo para turistas milionários.

Outubro de 2000

Enquanto a primeira tripulação da estação ISS se preparava para viajar ao espaço, as autoridades espaciais russas decidiram retirar a Mir de órbita até o final do primeiro semestre de 2001. Ia por terra qualquer chance da Mir se transformar em um hotel de luxo no espaço.

20 de fevereiro de 2001

A Mir completou seu décimo quinto ano em órbita, ultrapassando de longe os cinco anos de vida, ou até menos, originalmente planejados pela agência espacial soviética. Nesta data, astronautas e cientistas fazem um protesto em Moscou contra o iminente fim da estação.

Março de 2001

O fim da Mir foi marcado provisoriamente para meados do mês. A data exata dependia da atividade solar, que podia aumentar ou diminuir a força de resistência atmosférica na estação. As estimativas eram de que a maior parte das 130 toneladas da estação deveria ser carbonizada ao entrar na faixa da atmosfera sobre o Pacífico Sul entre a Austrália e o Chile. Ainda, cerca de 35 toneladas resistiriam à reentrada e cairiam no oceano.

 

O fim da Mir, orgulho espacial soviético e da humanidade

Em outubro de 2000 a Rússia decidiu destruir a Mir por causa da carência de meios técnicos e financeiros para mantê-la em órbita. A MirCorp, empresa encarregada de buscar financiamentos para a estação, não conseguiu reunir os recursos necessários, e o governo já não dispunha de meios financeiros para sustentá-la.

A estação espacial, que já foi um dos orgulhos da extinta União Soviética, caiu no Oceano Pacífico, a uma distância de 3 mil quilômetros da Austrália, no dia 23 de março de 2001.

Apesar dos problemas dos últimos anos, a Mir pode ser considerada como o experimento espacial mais bem sucedido da história da humanidade, por ter alcançado mais resultados. Nunca antes um mesmo veículo espacial foi ocupado por 12 anos e meio. Neste período, um total de 103 astronautas visitou a estação espacial, sendo 62 não russos, representando 11 países (inclusive os Estados Unidos).

Lançada para substituir as estações da série Salyut, a Mir começou a funcionar em fevereiro de 1986, ainda como parte do programa espacial da União Soviética. Na maior parte do tempo, abrigou dois ou três astronautas, mas o número de tripulantes simultâneos chegou a seis, em períodos superiores a um mês. Os cientistas da NASA reconhecem as soluções criativas dos soviéticos para a permanência do equipamento na órbita da Terra.

O conceito mais engenhoso foi a construção modular, igualmente adotada na ISS por influência dos projetistas soviéticos. Na realidade os módulos russos Zarya e Zvezda nada mais são do que o núcleo básico do que seria a estação Mir 2.

Recorde-se que, pelo contrário, o Skylab americano era constituído por um bloco apenas, o que lhe conferia menos flexibilidade e escalabilidade.

Outra contribuição decisiva da engenharia espacial soviética trazida pela Mir foi a regeneração do ar e da água em níveis nunca antes alcançados.

Como resultado da queda do comunismo soviético, e com a conseqüente desestruturação do país, esgotaram-se os recursos financeiros destinados à pesquisa e exploração do espaço. Foi o início da fase mais melancólica da estação, dos incêndios, das falhas de equipamentos que atrapalhavam as missões. O fim, depois de 14 anos, foi anunciado no dia 17 de novembro, data em que a Rússia decidiu fazer a estação cair no Oceano Pacífico.

A bordo da Mir foram realizados mais de 16.500 experimentos científicos em campos tão diversos quanto a medicina, a biologia, a astronomia, a física de materiais e a tecnologia. Essas pesquisas permitiram aprofundar os conhecimentos de fisiologia humana (sistemas cardiovascular e nervoso).

Pela primeira vez, nasceram aves (codornas) em condições de microgravidade, e o desenvolvimento embrionário dos anfíbios pôde ser observado. Outro estudo permitiu, também pela primeira vez, obter um ciclo vegetal completo da cevada.


História da Conquista Espacial © Karl H. Benz