Entre impérios e trevas

A história da humanidade tem se resumido a tristes embates entre os impérios e as trevas, com efêmeros espaços eventuais para a civilização. Os impérios dominam militarmente os demais povos, sufocando-os política e economicamente; seus líderes são cooptados, subornados ou exterminados, a vontade de seu povo é subjugada, aniquilada. Quem se levanta contra o império é processado, preso, torturado ou assassinado. Não é diferente a história dos impérios hitita, persa, romano, britânico, nazista, soviético ou americano.

No entanto, em algum momento, erguem-se forças poderosas contra o império. Infelizmente, não são os movimentos sociais dos países dominados que acabam com os grandes impérios - quem destrói o império são forças bárbaras, mais violentas do que o próprio império, são as forças das trevas, do obscurantismo e do fundamentalismo religioso.

Roma obteve o domínio do mundo antigo por meio da destruição de vários outros impérios locais (Egito, Cartago). Quem destruiu Roma foram hordas de godos, ostrogodos, visigodos e outros maltrapilhos selváticos e cruéis, que estupravam mulheres e crianças, matavam e destruíam tudo à sua volta. Quem destruiu o Império Britânico, no qual o Sol nunca se punha, foi Adolf Hitler et caterva. Quem destruiu Hitler foi uma aliança de outros bárbaros (Stalin e Eisenhover, depois Truman), que disputavam os despojos dos impérios britânico e nazista. Quem destruiu o Império Soviético foram os bárbaros burocratas corruptos encastelados nos PCs da URSS.

  Quem atacou e abalou o Império Americano não foi o Tribunal Penal Internacional, nem o Greenpeace, muito menos o genial cineasta Michael Moore, nem John Lennon, nem Noam Chomsky, nem o cético Carl Sagan (expoentes da civilização); quem atacou e abalou o Império Americano foi um bárbaro chamado Osama Bin Laden.

Os impérios reprimem, sufocam e destróem a civilização, e acabam por ser destruídos por aqueles que rejeitavam a mesma civilização que os impérios destruíram.

Nesta perspectiva, usar o chavão dogmático de "bem" e "mal" soa ridículo: quem é o "bem": o império que a todos tortura, subjuga e aniquila ou o bárbaro que assassina civis indiscriminadamente, em nome do combate ao "mal"? Um império destruído não é sucedido pela civilização, pela democracia; é sucedido pelo obscurantismo, pelo fundamentalismo religioso, pelas trevas.

A liberdade e a ciência

Pois, neste embate infame, nestes tempos de obscurantismo, a liberdade e a ciência são os primeiros a serem sufocados. Não a liberdade econômica, que muito poucas vezes se viu verdadeiramente ameaçada, não a liberdade econômica, grande aliada de todos os impérios, mas sim a liberdade do pensamento, a liberdade da crítica, a liberdade de não acreditar, de duvidar, de contestar. A liberdade de fazer ciência. A liberdade de não aceitar a versão da autoridade.

Pensar é perigoso. Pensar é pensar diferente, senão não é pensar, é apenas repetir. O pensamento cria a civilização, o pensamento (livre por definição) é o grande inimigo de impérios e de bárbaros.

Carl Sagan afirma, no seu livro magistral "The Demon-Haunted World: Science as a Candle in the Dark", que "os valores da ciência e os da democracia são concordantes, em muitos casos indistinguíveis. (...) A ciência se nutre - na verdade necessita - do livre intercâmbio de idéias; seus valores são opostos ao sigilo. A ciência não mantém nenhum ponto de observação especial, nem posições privilegiadas. Tanto a ciência como a democracia encorajam opiniões não convencionais e debates vigorosos. Ambas requerem raciocínio adequado, argumentos coerentes, padrões rigorosos de evidência e honestidade. (...) Mas, se não praticarmos esses hábitos vigorosos de pensar, não podemos ter a esperança de solucionar os problemas verdadeiramente sérios com que nos defrontamos - e nos arriscamos a nos tornar uma nação de patetas, um mundo de patetas, prontos para sermos passados para trás pelo primeiro charlatão que cruzar o nosso caminho."

A ciência acaba por ser escrava do militarismo imperialista; a liberdade sucumbe. O fundamentalismo religioso dos bárbaros sufoca a ciência e a democracia por completo. Décadas ou séculos depois, o pensamento crítico ressurge, a civilização reaparece. Por quanto tempo?

Pois o pensamento, a ciência, a liberdade, surgem novamente a partir da genialidade e da coragem de pessoas como Giordano Bruno, que foi aprisionado pela Inquisição nos fins do século XVI, por suas idéias revolucionárias e contrárias aos dogmas fundamentalistas da Igreja.  

Ele contestava "verdades" como o geocentrismo e o aspecto racional da fé. Hoje, certamente contestaria novos logros como o Creacionismo, teoria fundamentalista que nega todas as descobertas da Teoria da Evolução de Darwin, da Teoria do Big Bang e da cosmologia moderna. O que ele diria sobre sobre a fatwa (edito religioso) emitida em 1993 pelo xeque Abdel-Aziz Ibn Baaz, suprema autoridade religiosa da Arábia Saudita, que declarava que o mundo é chato?

Novamente Carl Sagan, no mesmo livro "The Demon-Haunted World: Science as a Candle in the Dark": "Uma das lições mais tristes da história é a seguinte: se formos enganados por muito tempo, a nossa tendência é rejeitar qualquer evidência do logro. Já não nos interessamos em desacobrir a verdade O engano nos aprisionou. É simplesmente doloroso demais admitir, mesmo para nós mesmos, que fomos enganados. Se deixamos que um charlatão tenha poder sobre nós, quase nunca conseguimos recuperar nossa independência. Por isso, os antigos logros tendem a persistir, enquanto surgem outros novos. (...) Mentiras, fraudes, pensamentos descuidados, imposturas e desejos mascarados como fatos não se restringem à magia de salão, nem a conselhos ambíguos sobre assuntos do coração. Infelizmente, eles estão infiltrados nas questões econômicas, religiosas, sociais e políticas dos sistemas de valores dominantes em todas as nações."

Giordano Bruno foi perseguido por duas Igrejas, a Católica e a Protestante. Forçado a renegar seus escritos e suas idéias, permaneceu firme e intransigente na defesa dos mesmos. Morreu na fogueira da Inquisição no ano de 1600.

A obra de Bruno e de tantos outros cientistas, pensadores, filósofos e artistas permanecerá como patrimônio da Humanidade enquanto habitarmos este planeta. Alguém se lembrará do rosto dos carrascos da Inquisição ou dos soldados americanos torturando no Iraque? Alguém se lembrará dos discursos de Átila, o Huno, de Hitler, Stalin, George W. Bush, Ariel Sharon ou Osama Bin Laden? Mas nos lembraremos de poesias e pinturas, como o imortal "Guernica", de Pablo Picasso, retratando o ataque nazista à população civil no vilarejo espanhol de Guernica, em 26 de abril de 1937.

Guernica - Pablo Picasso

História da Conquista Espacial © Karl H. Benz