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As fontes para a descrição abaixo baseiam-se nos sites "Mark Wade's ENCYCLOPEDIA ASTRONAUTICA", "Russian Space Web" e "Space History Notes".
A primeira iniciativa na concepção e criação de satélites ASAT (satélites anti-satélite) foi tomada pelos Estados Unidos, ainda no final dos anos 50. A idéia era defender o país de ataques provindos do espaço (talvez de ETs malignos, já que os soviéticos estavam às voltas com seus primeiros sucessos aeronáuticos, mas ainda não possuíam nenhuma tecnologia em satélites, muito menos em ataques espaciais...) Estas idéias culminaram na SDI (Strategic Defense Initiative) - Projeto "Star Wars" da década de 80.
A primeira tentativa de algo do gênero ocorreu em 19 de junho de 1959, quando os americanos lançaram um foguete Bold Orion de um avião B-58, com o objetivo de destruir o satélite Explorer 4. O foguete explodiu a poucos quilômetros do satélite, e não o destruiu. Tentativas posteriores também fracassaram, bem como outros projetos semelhantes, tais como Caleb e Hi-Hoe. Os americanos acabaram desistindo da idéia até o surgimento do "Star Wars".
A União Soviética, por sua vez, começou a trabalhar em seu sistema ASAT no início dos anos 60. Os alvos não eram apenas foguetes com bombas atômicas, mas satélites espiões, de comunicação, ou qualquer outro possível satélite inimigo que poderia precisar ser destruído por motivos militares. Forma consideradas várias alternativas para a realização da tarefa, que consistia basicamente em interceptar a órbita do satélite-alvo, aproximar-se do mesmo e detonar uma carga explosiva, de forma a destruí-lo.
Diversas propostas foram apresentadas:
1. Uso de um míssil balístico intercontinental (ICBM) com uma carga nuclear que explodiria no espaço. Esta proposta fazia parte dos projetos militares soviéticos no início da década de 60, incluindo o foguete GR-1 (conhecido nos EUA como Fractional Orbital Bombing System - FOBS) e GR-2, com uma bomba de 100 megatons. Um foguete com esta potência destruiria todo e qualquer satélite num raio de 1.000 km, e espalharia uma radioatividade absolutamente inaceitável (como arma defensiva, disparada sobre o seu próprio território, seria algo dantesco...). Os Estados Unidos tentaram uma abordagem semelhante, com os foguetes Nike Zeus DM-15S e Project 437/Thor LV-2D, entre 1963 e 1972. Por sorte, esta abordagem foi abandonada!
2. Um pequeno foguete lançado a partir de algum avião, da mesma forma que os EUA haviam tentado em 1959. O míssil seria lançado de uma altitude de 30.000 metros, e levaria uma carga explosiva de 50 quilos até a altitude orbital. O foguete deveria interceptar a órbita do satélite alvo, aproximar-se a menos de 30 metros e então acionar a carga explosiva, para garantir a destruição da "vítima". Os soviéticos trabalharam nesta idéia de 1961 a 1963, mas, a exemplo dos americanos, não obtiveram bons resultados, pois não dispunham de um sistema de direção com precisão suficiente.
3. Um ASAT tripulado. Os russos começaram o desenvolvimento da Soyuz-P em 1964, projetada para inspeção e destruição de satélites inimigos. A Soyuz-P deveria interceptar a órbita do satélite alvo e se aproximar dele; a seguir, os astronautas desembarcariam e fariam uma inspeção no satélite; dependendo das informações de terra e dos resultados desta inspeção, o satélite seria neutralizado, destruído ou até mesmo trazido de volta à Terra, para estudos posteriores (muito difícil!). Esta opção, além de tecnicamente muito complexa, trazia grandes riscos para os astronautas, pois todos os satélites russos tinham um dispositivo de auto-destruição, acionado por rádio, para evitar que caíssem em "mãos erradas", e era de se supor que os americanos fizessem o mesmo...
4. Um ASAT tripulado usando inspeção à distância e armas. Este projeto (Soyuz-P remodelada) foi designado de Soyuz 7K-PPK (pilotiruemovo korablya-perekhvatchika, nave de interceptação tripulada). A nave, equipada com 8 pequenos foguetes, interceptaria a órbita do satélite inimigo, se aproximaria e os astronautas, sem descerem da Soyuz, fariam uma inspeção no alvo, utilizando sistemas visuais e outros recursos da sua nave. Caso se decidisse pela destruição do satélite alvo, a Soyuz recuaria a uma distância segura (1 km) e dispararia um dos seus foguetes. Esta opção, tecnicamente viável e razoavelmente segura para os astronautas, acabou sendo abandonada em função de atrasos no projeto e do sucesso dos testes iniciais da opção escolhida.
5. Um satélite interceptador não tripulado, semelhante à Soyuz 7K-PPK,que deveria destruir os alvos com o uso de pequenos foguetes. No entanto, os projetistas novamente não conseguiram chegar a um sistema de direção com precisão suficiente. Como fator complicador adicional, a nave teria de se aproximar do alvo a uma distância segura, disparar o foguete e se retirar, a salvo. Nesta manobra, facilmente o próprio interceptador poderia se tornar um alvo de ASATs inimigos.
6. Um satélite "kamikaze" individual, que se aproximaria do alvo e explodiria, destruindo a si mesmo e à sua "vítima". Esta opção resolveria os problemas da precisão necessária e da complexidade da opção anterior. Era a opção mais barata, tecnologicamente viável e era facilmente disponível. Acabou sendo a opção escolhida.
7. Um interceptador espacial não tripulado oculto; a nave seria posta em órbita, e então colocada para "hibernar" por longo tempo. Quando fosse necessário, em caso da presença de alvos inimigos, a nave seria ativada e interceptaria o alvo, destruindo-o. Este sistema teria um tempo de resposta menor do que a solução "kamikaze", mas necessitaria de um grande motor e muito combustível, para que o interceptador pudesse mudar rapidamente de órbita e alcançar o alvo (tipicamente, uma altitude de 300 a 1.000 km e uma inclinação de 32 a 100 graus). Tal satélite teria de ser muito grande, e na época não havia foguetes capazes de colocar em órbita uma carga deste tamanho. Havia outras desvantagens adicionais, como a facilidade de detecção por parte do inimigo e a dificuldade em se manter em órbita por longos períodos (6 a 12 meses), em condições operacionais, um satélite com este fim. Assim, esta opção não chegou a sair do papel.
8. Um grande "depósito" de minas espaciais, que poderia colocar 12 interceptadores em órbita num só lançamento. A nave com o "depósito" manobraria até a vizinhança de uma série consecutiva de alvos, e destruiria um por vez. Apesar de ser uma boa solução (para a situação particular de alvos próximos, claramente uma situação de ataque nuclear), o imenso tamanho da nave levaria a custos proibitivos e a uma grande facilidade de detecção da mesma por radares inimigos.
A opção escolhida - o lançamento individual de satélites "kamikaze" - oferecia diversas vantagens decisivas: menor complexidade tecnológica, dificuldade de detecção por parte do inimigo, menor custo e inexistência de risco para seres humanos. E, em função destas vantagens, era a opção que poderia tornar-se operacional no menor período de tempo, e com maior confiabilidade.
O nome do projeto, escolhido pelo projetista Vladimir Chelomei, foi "Istrebitel Sputnikov" (satélite de caça), designado pela sigla "IS" [ fotos ]. Deveria ser lançado pelo foguete UR-200, também de Chelomei.
Os parâmetros orbitais do satélite alvo (o que iria ser caçado) deveriam ser conhecidos antes do lançamento, e o satélite interceptador seria programado com estes parâmetros. Após ser inserido na órbita inicial pelo foguete lançador, o motor do satélite interceptador faria uma certa quantidade de manobras, até conseguir interceptar a órbita do alvo, se aproximaria a uma certa distância e acionaria o explosivo, que destruiria ambos - alvo e interceptador. A interceptação deveria se dar entre a primeira e a terceira órbitas, embora fossem possíveis novas tentativas em caso de perda do alvo.
| O Istrebitel Sputnikov era aproximadamente esférico,
com um peso total de 1.400 quilos. Era dividido numa
seção principal, que continha os sistemas de direção
e detecção do alvo, além de uma carga de 300 quilos de
explosivo, e a seção que continha o motor. Era projetado de modo a se partir como uma granada, em 12 grupos de fragmentos, o que garantia a destruição de alvos localizados num raio de aproximadamente 400 metros. Seu motor era capaz de disparar e parar centenas de vezes, com combustível suficiente para um tempo total de operação de 300 segundos. Durante a sua vida útil, a nave foi consideravelmente melhorada, sendo que em 1976 foi introduzida a segunda geração. O desenvolvimento começou em 1961. Em 1963 e 1964 foram lançados os interceptadores Polyot 1 e Polyot 2 (Polyot, em russo, significa "vôo"). |
Crédito: Mark Wade |
Os testes foram bastante completos, e muito bem sucedidos. Considerando-se a complexidade da missão, pode-se afirmar que já no primeiro teste foram validados muitos dos princípios envolvidos.
A situação de Chelomei mudou em 1964, com a queda do líder soviético Nikita Kruschev. Sergei Korolev assumiu a missão de levar adiante o projeto, o que acabou provocando um atraso de mais de 3 anos.
Crédito: Mark Wade |
Finalmente, em 27 de outubro de 1967 (após o falecimento de Korolev), foi lançado um novo modelo (I2P) do interceptador Istrebitel Sputnikov, bastante modificado em relação ao original de Chelomei. Foram utilizados dois diferentes alvos - inicialmente o I2M, lançado por um foguete ICBM R-36, e a partir de 1971 o DS-P1-M, projetado por Yangel e lançado por um foguete menor, o Kosmos 11K65M. |
O modelo I2P foi utilizado de 1968 a 1972.
Em 1972 a União Soviética e os Estados Unidos assinaram o primeiro tratado SALT (Strategic Arms Limitation Treaty), que obrigou os soviéticos a cancelarem futuros testes dos satélites ASAT. No entanto, a arma foi incorporada ao Exército Vermelho para uso regular.
Em 1976, modificações no projeto resultaram num interceptador mais avançado, cuja trajetória de interceptação era mais otimizada, o modelo IS-A, que foi submetido a testes até 1978. Também foi usado um novo alvo, o IS-P.
De 1981 a 1982 foram realizados testes adicionais, que visavam verificar o funcionamento dos interceptadores após longo período de armazenamento. Os resultados iniciais foram assustadores, pois os ASAT não conseguiam encontrar os seus alvos.
Após 1982 não foram realizados mais vôos do Istrebitel Sputnik, embora haja boatos sobre um modelo aperfeiçoado, o IS-MU, que teria sido posto em operação sem a realização de testes. Também há notícias de que haveria um sistema de ASAT lançado a partir de aviões (especificamente, caças MiG-31 e bomberdeiros Tu-160), e que este produto estaria sendo oferecido comercialmente. Porém, estas informações ainda estariam, obviamente, sujeitas a sigilo militar.
Um problema sério decorrente dos testes era o inevitável surgimento de uma grande quantidade de fragmentos oriundos da explosão, o que gerava um lixo espacial considerável e causava riscos a outros artefatos espaciais. Dependendo da explosão, eram deixados em órbita até mais de 100 pedaços, dos mais diversos tamanhos. Após ter sido determinado o padrão ótimo de fragmentação, os testes posteriores não detonavam mais a carga explosiva, com vistas a evitar a geração de mais lixo espacial ainda.
Esta atitude provocou um erro de interpretação por parte de observadores (espiões) americanos, que entendiam, erroneamente, a não explosão do ASAT como um fracasso.
Foram as seguintes as missões (conhecidas) da série ASAT Istrebitel Sputnik:
O que impressiona nesta longa série de interceptações são dois fatores: primeiro, a grande quantidade de missões bem sucedidas numa tarefa tão complexa; os soviéticos poderiam interceptar facilmente um satélite inimigo em um dia, e tinham condições de fazê-lo na segunda órbita, dependendo dos parâmetros de lançamento; em segundo lugar (e isto fica muito claro numa pesquisa do site de Mark Wade), o conhecimento que a inteligência americana tinha a respeito das missões desta série era muito grosseiro, e certamente comprometia a qualidade das informações que eram passadas ao governo americano.
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Pelo que se depreende, o sistema ASAT soviético
estava operacional já a partir de 1968 (como nesta bela
concepção artística ao lado).
Crédito: Russian Space Web |
| Posteriores melhorias foram feitas, mas numa situação de emergência parece claro que um satélite ASAT soviético tinha plenas condições de caçar um inimigo pelo espaço, e destruí-lo completamente (como na representação ao lado, onde um ASAT soviético estaria destruindo um satélite espião americano da série Corona...). |
Crédito: Mark Wade |
História da Conquista Espacial © Karl H. Benz