O Programa Venera

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O Programa Venera se estendeu de 1961 até 1983.

A primeira tentativa foi efetuada com um lançamento parcialmente fracassado, em 4 de fevereiro de 1961. A nave foi chamada de Venera 1a, e foi lançada em órbita, a partir do Sputnik 7, com quase 6.500 quilos, que era uma plataforma de lançamento de um satélite Venera com destino a Vênus.

Em 12 de fevereiro de 1961 foi lançada a Venera 1, a partir do Sputnik 8, em órbita terrestre baixa. O Sputnik, com cerca de 6.500 quilos, lançou a Venera (cerca de 650 quilos) a partir da órbita terrestre rumo a uma órbita solar. Os objetivos da Venera, além de adquirir tecnologia sobre lançamentos diretamente do espaço, eram o teste de comunicações em distâncias muito longas e controle da estação espacial (Sputnik 8), além de diversos outros experimentos científicos, tais como um cálculo mais preciso das dimensões do Sistema Solar.

A Venera 1 foi a primeira nave disparada em direção a Vênus. Possuía um corpo cilíndrico com uma espécie de redoma no topo, com uma altura total de cerca de 2 m, e havia dois painéis solares laterais de dimensões relativamente pequenas.

Uma antena grande (mais de 2 m de diâmetro), de alto ganho, era a responsável pela recepção dos sinais de controle, e uma antena linear longa transmitia os sinais à Terra.

 

Os instrumentos científicos da nave incluíam um magnetômetro, detectores de íons, detectores de micrometeoritos e radiação cósmica. A redoma no topo da nave continha uma esfera pressurizada que continha as insígnias soviéticas, e era projetada para flutuar nos presumíveis oceanos de Vênus, após o pouso (a nave não continha retrofoguetes).

A missão, no entanto, não obteve êxito: uma semana após o lançamento, quando a Venera 1 estava a aproximadamente 2 milhões de km da Terra, o contato com a nave foi perdido. Em 19 de maio de 1961, a Venera 1 passou a cerca de 100.000 km de Vênus e entrou em órbita do Sol.

Houve, a seguir, diversas tentativas fracassadas de missões a Vênus:

Satélite

Data

Comentários

Sputnik 19 25/ago/1962 não saiu da órbita da Terra
Sputnik 20 1/set/1962 falha parcial
Kosmos 21 11/nov/1963 não saiu da órbita da Terra
Kosmos 27 27/mar/1964 não saiu da órbita da Terra

Novo fracasso com a Venera 2, lançada em 12 de novembro de 1965, que carregava um sistema de TV e instrumentos científicos. Em fevereiro de 1966, antes de alcançar Vênus, as transmissões pararam. A nave passou a 24.000 km de Vênus, e entrou em órbita solar.

A Venera 3, lançada em 16 de novembro de 1965, tinha como missão pousar na superfície de Vênus. Era constituída por um sistema de comunicações de rádio, instrumentos científicos e fontes de energia. Carregava um medalhão com as insígnias soviéticas. A nave, cujas comunicações com a Terra falharam antes dela alcançar a órbita, atingiu a superfície do planeta no dia 1 de março de 1966.

Em 23 de novembro de 1965 foi lançado o Kosmos 96, considerado como integrante do Programa Venera. A nave falhou em sua missão. Mais um fracasso com o lançamento de nova nave Venera, em 26 de novembro de 1965.

  A nave Venera 4, lançada em 12 de junho de 1967, conseguiu transmitir informações durante a sua descida na atmosfera quente de Vênus. Em 18 de outubro de 1967 a nave entrou na atmosfera do planeta, e liberou uma cápsula com dois termômetros, um barômetro, um altímetro e medidores de densidade do ar, 11 analisadores de gás e dois rádio-transmissores.

O módulo principal da nave carregava um magnetômetro, detectores de raios cósmicos, indicadores de oxigênio e hidrogênio e detectores de partículas. O módulo de descida conseguiu transmitir informações durante a descida, até alcançar a altitude de 25 km (freiado por pára-quedas), até ser destruído pelas terríveis condições atmosféricas de Vênus.

Em 17 de junho de 1967 foi lançado o Kosmos 167, considerado como integrante do Programa Venera, com o objetivo de estudar a atmosfera superior terrestre e o espaço exterior. Não saiu da órbita terrestre.

  Em 1969 foram lançadas duas naves gêmeas com destino a Vênus, tendo ambas alcançado os seus objetivos. A Venera 5, lançada em 5 de janeiro de 1969, e a Venera 6, lançada em 10 de janeiro de 1969, transmitiram dados durante a descida na atmosfera venusiana. Ambas as naves (cada uma de 405 quilos) eram semelhantes à Venera 4, mas com um projeto mais robusto.

Cada nave carregava um módulo de pouso, dotado de pára-quedas, além de instrumental científico. Também carregavam as insígnias soviéticas e um baixo-relevo de Lênin. A Venera 5 lançou o seu módulo de pouso no lado escuro de Vênus em 16 de maio de 1969, e a Venera 6 o fez no dia seguinte.

As duas cápsulas resistiram por aproximadamente 50 minutos, transmitindo informações sobre a atmosfera do planeta.

Um grande sucesso foi obtido pela Venera 7, lançada em 17 de agosto de 1970. O módulo de pouso da nave conseguiu transmitir dados durante os 35 minutos de descida na atmosfera, e mais 23 minutos após o pouso, no dia 15 de dezembro.

Foi o primeiro artefato humano a pousar suavemente em outro planeta e conseguir transmitir informações durante certo tempo.

 

Novo fracasso ocorreu com o satélite Kosmos 359, lançado em 22 de agosto de 1970.

Em 27 de março de 1972 foi lançada a Venera 8. Seus instrumentos incluíam medidores de temperatura, pressão e luminosidade.

  Após 4 meses de viagem, o módulo de pouso da Venera 8 transmitiu informações até 50 minutos após o pouso, confirmando as informações colhidas pela Venera 7 no que diz respeito aos altos valores de temperatura e pressão atmosférica.  

A luminosidade de Vênus mostrou-se similar à dos dias nublados na Terra.

Mais um fracasso ocorreu com o satélite Kosmos 482, lançado em 31 de março de 1972.

Em 8 de junho de 1975 foi lançada a Venera 9, com um peso monstruoso de 5 toneladas, que lançou um módulo de pouso suave na superfície de Vênus em outubro. Seu objetivo era o estudo de Vênus e do espaço ao seu redor, e das características físicas do espaço interplanetário. Uma atenção especial foi dada ao estudo da atmosfera do planeta.  

A nave era construída a partir de um cilindro com dois painéis solares e uma antena parabólica de alto ganho. No topo estava encaixado o módulo de pouso, com um diâmetro de 2 metros e meio, e na base havia um sistema de propulsão. O instrumental científico era constituído por um fotômetro ultra-violeta (francês), um foto-polarímetro, um espectrômetro infravermelho, um radiômetro infravermelho, um magnetômetro e um detector de partículas carregadas. Também havia um sistema de TV.

No dia 20 de outubro de 1975 o módulo de descida da Venera pousou de forma suave em Vênus. Havia um sistema de refrigeração com líquido circulante, cujo objetivo era distribuir o calor uniformemente, o que permitiu uma transmissão de 53 minutos após o pouso.

Os dados da Venera 9 permitiram estabelecer o seguinte quadro da atmosfera venusiana, no local e data do pouso:

1. existe uma camada de núvens com espessura de 30 a 40 km, a partir de uma altitude de 30 a 35 km;

2. a atmosfera venusiana é composta, entre outos gases, por ácido clorídrico (HCl), ácido fluorídrico (HF), bromo (Br) e iodo (I)

3. a pressão atmosférica na superfície é de cerca de 90 vezes a da Terra;

4. a temperatura da superfície é de 485° C;

5. os níveis de luminosidade equivalem aos da Terra num dia encoberto de verão;

6. fotografias mostraram sombras, uma aparente falta de poeira no ar e diversas rochas não erodidas com dimensões entre 30 e 40 cm.

Outra missão bem sucedida, conjunta com a Venera 9, foi a Venera 10, lançada em 14 de junho de 1975, e que pousou em Vênus exatos 3 dias após a sua companheira.

Continha o mesmo instrumental científico que a Venera 9 (um fotômetro ultra-violeta, um foto-polarímetro, um espectrômetro infravermelho, um radiômetro infravermelho, um magnetômetro e um detector de partículas carregadas, além de um sistema de TV), e pousou a 2.200 km do local da sua predecessora, tendo transmitido por 65 minutos após o pouso.

A nave enviou, entre outras, as seguintes informações:

 

1. fotos mostrando rochas de origem aparentemente vulcânica (por analogia com formações terrestres semelhantes);

2. ventos de superfície com a velocidade de 3,5 km/h;

3. características da atmosfera venusiana, no local e data do pouso:

Altitude (km)

Pressão (atm terrestres)

Temperatura (°C)

42 3,3 158
15 37 363
0 92 465

A dupla de naves Venera 11, lançada em 9 de setembro de 1978, e Venera 12, lançada em 14 de setembro de 1978, pousaram suavemente em Vênus, respectivamente, nos dias 25 e 21 de dezembro. Tinham o mesmo desenho das Veneras 9 e 10. Além de instrumentos científicos soviéticos, ambas as naves carregavam equipamentos franceses para estudo de raios gama (desenvolvidos em função de um programa de cooperação franco-soviética de investigação do espaço com fins pacíficos).

As duas naves fracassaram parcialmente, embora cada uma tenha conseguido transmitir algumas informações durante a descida de 1 hora na atmosfera venusiana.

Mais uma missão com duas naves, a Venera 13 e a Venera 14. Em 30 de outubro de 1981 foi lançada a Venera 13, de projeto semelhante às suas antecessoras Venera 9, 10, 11 e 12.

Sua missão era continuar a pesquisa de Vênus e do espaço vizinho e investigar os campos magnéticos, de raios-X e raios gama do espaço, bem como o vento solar, os raios cósmicos e o plasma interplanetário. Além de equipamentos científicos soviéticos, foram empregados instrumentos franceses e austríacos.

 

A nave sobreviveu durante 2 horas após o pouso, a uma temperatura de 457°C e uma pressão de 89 atmosferas. Carregava instrumentos para medições químicas e isotópicas, medição de descargas elétricas na atmosfera, medição do espectro solar, etc. Retornou algumas fotografias.

Possuía um sistema de coleta de amostra de solo para análise, um penetrômetro dinâmico e um sismógrafo.

A nave gêmea da Venera 13, a Venera 14 [ foto ], foi lançada em 4 de novembro de 1981. De características idênticas à Venera 13, pousou a 950 km de sua irmã gêmea. Resistiu durante 57 minutos em uma temperatura de 465°C e 94 atmosferas. Também retornou fotografias.

Encerrando a série Venera, em 1983 foram lançadas duas naves destinadas a mapear Vênus com o emprego de um sistema de radar, sem pouso portanto: a Venera 15, lançada em 2 de junho de 1983, e a Venera 16, lançada em em 7 de junho de 1983.

As duas naves utilizavam um comprimento de onda de 8 cm para mapear a superfície do planeta. Ambas orbitavam Vênus com uma diferença de 4 graus, permitindo desta forma uma segunda imagem de radar em caso de necessidade.

As duas naves trabalharam em conjunto por 8 meses, mapeando desde o pólo norte venusiano até a latitude de 30 graus norte. Uma conjunção de Vênus (esse planeta ficou oculto pelo Sol), em junho de 1984, obrigou a Venera 16 a reprogramar a sua órbita, para compensar o período em que as transmissões foram impossíveis.

As naves Venera 15 e 16 eram idênticas, e aproveitaram a nave base (módulo orbitador) das Veneras 9 a 14, ligeiramente modificadas.

 

Os corpos cilíndricos das duas naves mediam 5 metros de comprimento por 6 metros de diâmetro máximo, com uma antena parabólica de 1,4 metros de altura, e ainda havia uma antena de 2,6 metros para comunicação.

História da Conquista Espacial © Karl H. Benz